Emagrecimento com medicamentos antiobesidade: por que a saúde do intestino faz toda a diferença

Durante muito tempo, o emagrecimento foi visto como uma simples conta de calorias. Hoje, a ciência mostra que o controle do peso é muito mais complexo.
Estudos recentes sobre a fisiologia da fome, como a revisão publicada no New England Journal of Medicine por Alessio Fasano, demonstram que a fome é regulada por uma comunicação constante entre:
- o cérebro
- o intestino
- os hormônios
- a microbiota intestinal
- o nível de inflamação do corpo
Isso ajuda a entender por que algumas pessoas continuam sentindo fome mesmo usando medicamentos e seguindo a dieta corretamente.
O que significa ter um intestino saudável?
Quando falamos em saúde do intestino, estamos falando de um equilíbrio entre:
- boa digestão e absorção de nutrientes
- baixa inflamação intestinal
- integridade da barreira intestinal
- uma microbiota intestinal diversa e equilibrada
A microbiota intestinal é formada por trilhões de bactérias que vivem no intestino e participam ativamente do controle do apetite, da saciedade e do metabolismo.
Quando esse sistema funciona bem, o corpo reconhece melhor os sinais de fome e saciedade. Quando não funciona, esses sinais ficam confusos.
O que é um “ambiente intestinal desfavorável”?
Um ambiente intestinal desfavorável pode envolver:
- desequilíbrio da microbiota (disbiose)
- inflamação intestinal de baixo grau
- aumento da permeabilidade intestinal
- menor produção de substâncias que ajudam na saciedade
Nesse cenário, o intestino envia sinais alterados para o cérebro, dificultando o controle do apetite e do peso.
Medicamentos para emagrecer dependem do intestino para funcionar bem
Os medicamentos modernos para obesidade, como os que atuam no hormônio GLP-1, não criam um efeito artificial no corpo. Eles imitam mecanismos naturais do intestino que promovem saciedade e redução do apetite.
Por isso, quando a saúde intestinal está comprometida, podem surgir alguns problemas:
- a saciedade dura pouco
- a fome volta rapidamente
- há mais vontade de comer doces e ultraprocessados
- surgem mais efeitos colaterais gastrointestinais, como náuseas e distensão abdominal
- a manutenção do peso se torna mais difícil
Em outras palavras, não basta usar o medicamento se o ambiente intestinal continua desfavorável.
Inflamação intestinal atrapalha o emagrecimento
A inflamação intestinal silenciosa é comum em pessoas com obesidade e pode atrapalhar diretamente o emagrecimento.
Ela interfere nos hormônios que avisam o cérebro que o corpo já comeu o suficiente, como a leptina e a insulina. Na prática, isso faz com que a pessoa:
- coma menos quantidade, mas continue sentindo fome
- tenha mais dificuldade de manter o peso perdido
- apresente maior risco de compulsão alimentar
Quando falamos em mudança de estilo de vida durante o emagrecimento com medicamentos, não estamos falando apenas de dieta e exercício físico.
- Cuidar da saúde do intestino também faz parte desse processo e inclui:
- melhorar a qualidade da alimentação
- aumentar o consumo de fibras
- reduzir alimentos ultraprocessados
- cuidar do sono
- manejar o estresse
- adotar estratégias nutricionais que favoreçam a microbiota intestinal
Esses cuidados tornam o tratamento mais eficaz, mais confortável e mais sustentável.
Em resumo
O emagrecimento saudável não depende apenas de medicamentos ou força de vontade. Ele depende de um sistema biológico complexo, no qual o intestino tem papel central.
Quando a saúde intestinal é negligenciada, o tratamento tende a ser mais difícil. Quando o intestino é cuidado, o corpo responde melhor, a fome fica mais regulada e o emagrecimento se torna mais possível de manter a longo prazo.
Referência:
Fasano A. The Physiology of Hunger. N Engl J Med. 2025 Jan 23;392(4):372-381. doi: 10.1056/NEJMra2402679. PMID: 39842012.
